domingo, 20 de setembro de 2009

A long long time ago

Doíam-me as pálpebras do tempo que levavam encolhidas. Abri o livro enorme que pairava na mesinha de cabeceira, sem medo e confiante. As páginas foram ficando turvas à medida que as folheava, comecei a reler parágrafos que ficavam perdidos a meio. Não tardou para que cedesse a saltar palavras, frases e parágrafos. Perder-me na pontuação e na gramática e acabar confuso com os recursos estilísticos. Não tentava dissecar as verdadeiras mensagens por trás de um simples monólogo. Deixava-me ir, sem forças para mais. Na última página, na última palavra, baixei os braços e deixei que o livro me escorregasse, lentamente, das mãos. Sem absorver metade da mensagem, tinha a história presa na cabeça. Era tão complexa que mais parecia ter acabado de ler uma obra filosófica. Mas não, era simples e delicada. Longa, dramática e extenuante. Fechei os olhos e vi o texto numa tela gigante, a cores. As palavras deram lugar a vozes e a imaginação passou a ser real. Peguei em mim e fugi. Guardei-me no quarto, fechei-me a sete chaves e parti três apoios do tecto. Desabou. Deixei que fosse caindo, peça por peça, castigando-me aleatoriamente. As feridas jorraram sangue que me escorria face abaixo. Não me cobri, não me escondi, não fugi. Deixei-me ficar, enquanto sentia todo o betão a ceder, vagarosamente. Senti um braço, pequeno, puxar-me. Anda, fica aqui ao lado, vais ver que acalma. E acalmou, como por magia. Desinfectou-me com álcool e coseu-me as feridas. As cicatrizes ficarão para sempre. Só para me recordar que já lá estavam antes. Descansa, foi uma noite difícil, és profissional nisso, lembras-te?

5 comentários:

Ju disse...

Percebe-se, lembrar ao procurar esquecer :)

Neuza disse...

Que belas metáforas :)
E voltas com nova categoria e tudo.

Boa sorte :)

Inês disse...

lindo...

Rui disse...

Obrigado :) *

Anónimo disse...

Deixas sempre a desejar. Aquilo que faz parte de ti, tu não podes largar. Faz as pazes com o tempo.
Tenho para mim que por mais voltas que dês, acabas sempre por voltar. Não. Não são apenas voltas, são os tais 360º graus, que te deixam preso ao chão. E foi aí que, fortuitamente, te apercebeste, que és aquilo que fazes de ti.
Toma nota: não faças promessas, faz por contar, apenas.